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A igualdade de gênero na política deve ser levada a sério de uma vez por todas, diz MPF


A igualdade de gênero na política deve ser levada a sério de uma vez por todas, diz MPF

Para fiscalizar o cumprimento da decisão dos 30% de verba destinados a candidaturas femininas e de outras questões ligadas à igualdade de gênero na política, a promotora Vera Lúcia Taberti, do Ministério Público de São Paulo, está atuando junto à Procuradoria Regional Eleitoral durante todo o pleito. Para ela, a igualdade de gênero na política deve ser levada a sério de uma vez por todas.

A promotora tem experiência nessa linha de atuação, em 2016, ajuizou diversas ações questionando partidos políticos pela falta de atendimento à exigência legal de 30% de diversidade de gênero em suas chapas proporcionais e por fraudes, como o lançamento de candidaturas fraudulentas apenas para cumprimento da cota. Vera Lúcia foi designada, em portaria conjunta da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e do procurador-geral de Justiça de São Paulo, Gianpaolo Smanio, para atuar com o tema nas eleições deste ano.

Você sabia que mais de 50% dos filiados dos partidos políticos são mulheres? Por isso que não dá para dizer que elas não têm interesse. O que você mais ouve é isso, que mulher não gosta de política. Ela gosta, mas se vê que não tem espaço, por que vai se lançar? Vai se queimar, vai arrumar confusão e ainda não vai conseguir verba”, afirma ela.

Em entrevista do próprio Ministério Público Federal, Taberti comentou quais os desafios que devem ser superados para efetivamente aumentar o número de mulheres na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados e, também, conta quais serão as principais frentes de enfrentamento durante o trabalho na Procuradoria. Confira abaixo:

Em 2016, a senhora já atuou na fiscalização das candidaturas femininas. Qual vai ser o foco do trabalho aqui na PRE-SP?

O foco vai ser verificar se as candidatas estão recebendo as verbas do Fundo Partidário que lhe são de direito e se os partidos estão as auxiliando com transporte, dinheiro para campanha, dando visibilidade a elas. Também vamos focar nas candidaturas fictícias. Porque se não tiver isso, a representatividade da mulher na política nunca vai aumentar. Não adianta a gente ter uma política de cota se, na verdade, ela não está realmente sendo utilizada, por causa dos partidos políticos, da sua falta de democratização interna e da falta de interesse por parte deles de que as mulheres ocupem esse espaço.

Quais mecanismos o Ministério Público tem para fiscalizar o uso correto desses 30% previstos na legislação eleitoral para as candidaturas femininas?

Quando o partido recebe a verba, em 72 horas ele já tem que começar a fazer a prestação de conta das doações. Então vamos fazer a fiscalização da prestação de contas das candidatas em tempo real. Isso durante a campanha. Depois, eu também gosto de selecionar algumas candidatas que não tiveram muitos votos, ou que não fizeram campanha, para darem um feedback, para a gente ver o que ocorreu.

Eu temo que o que aconteceu nas últimas eleições municipais aconteça nessa eleição, de as candidatas receberem só o santinho delas. Ou que seus dados estejam no verso do santinho de um senador, por exemplo, e que elas funcionem apenas como cabos eleitorais. Temos que certificar que essas candidaturas sejam mesmo levadas adiante e que os partidos propiciem o mínimo de chance para que elas efetivamente recebam votos. Senão de nada adianta.

Como foi a experiência de 2016 no que diz respeito às candidaturas falsas?

Nas eleições passadas tinha gente filiada a um partido e concorrendo por outro. Teve gente que não sabia que estava concorrendo. Este ano, o fato de os processos serem eletrônicos acaba dificultando um pouquinho a nossa investigação. Isso porque, quando os processos eram físicos, às vezes os partidos faziam o registro, mas não tinha a assinatura da candidata. Então a gente tinha que ir atrás, porque a pessoa não tinha concordado em ser candidata, ou às vezes sequer sabia. Eles lançavam a candidatura e depois faziam uma carta de desistência, que também não era assinada pela pessoa. Dessa vez eu quero ver todas as cartas de desistência, quero dar uma olhada nisso. Tudo que for suspeito a gente vai querer passar um pente fino, para que essa questão seja levada a sério de uma vez por todas.

Nas eleições passadas eu conversei muito com as candidatas, porque a maioria, por ser bastante simples, não tinha noção de que estava sendo utilizada só como cabo eleitoral. Elas ficavam agradecidas por terem material de campanha. Não tinham ajuda nenhuma. A ideia é conversar mesmo, abrir um canal de comunicação para que as candidatas que estejam sendo desvalorizadas, que venham até nós denunciar, para que tomemos medidas.

Então a ideia é começar essa interlocução desde já?

Exatamente, porque não adianta ter os 30% de mulheres candidatas se elas não têm nenhuma condição de campanha. Não adianta também ter esse número de mulheres só no lançamento das chapas, isso tem que continuar. Tem que ver se houve desistência, se houve substituição. Esse percentual tem que ser mantido ao longo de toda a eleição. E cada vez mais ir conscientizando as mulheres dos direitos que elas têm, da importância delas na política. Porque em um ambiente predominantemente masculino, todas as pautas ligadas aos direitos das mulheres são deixadas em segundo plano. Enquanto continuar assim, nada vai mudar.

Dá para ter esperança na atual composição do Tribunal? 

Eu acho que ainda tem muita resistência, infelizmente. Seria muito bom se isso mudasse, porque se continuar esse espírito de pensamento, não vai mudar. É uma política afirmativa, e, como política afirmativa, ela tinha que ser exemplar. Porque aí os partidos não iam mais fazer isso. Se eles fossem punidos com rigor, eu acho que haveria um interesse maior na própria formação de líderes, nas formações políticas das candidatas. Eles iriam atrás de potenciais candidatas, que seria alguém que está preocupada mesmo com a sociedade, com as questões sociais.

O ambiente político para a mulher já é misógino por história.

Com certeza. Repare que mulheres que entram na política, salvo raríssimas exceções, já têm parentesco com político homem. Claro, tem aquelas que fizeram um trabalho maravilhoso. Mas aqui em São Paulo, é muito difícil fazer com que esse trabalho apareça. São raras as que conseguem essa projeção sem ter verbas.

Tem essa questão de que nunca se viu tantas vices, que é justamente para poder pegar o dinheiro do fundo eleitoral da mulher. Ou seja, de que adiantou o TSE liberar esse dinheiro do fundo eleitoral, se não há critérios? Eu sei que pra uma senadora precisa ter uma verba maior, mas a gente não pode esquecer das deputadas. ‘Ah, ela é minha vice, pronto!’ Então os 30% do dinheiro estão aqui, ela é minha vice. Vai aumentar a representatividade? Não.

Então o desafio é grande. Mas, pelo menos aqui a gente faz o papel não só de promotor, mas também de cidadão. A gente tem que lutar, tem que lutar. É uma questão de cidadania e justiça.

Com informações do Ministério Público Federal.

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