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Kenia Maria: a primeira defensora dos Direitos das Mulheres Negras


Kenia Maria: a primeira defensora dos Direitos das Mulheres Negras

Nascida em Del Castilho, subúrbio do Rio de Janeiro, onde morou com os pais, os dois irmãos e outras seis famílias em um mesmo terreno, Kenia Maria tomou o primeiro tapa de um menino aos oito anos de idade. O bofetão veio do nada. À toa. Dentro da escola. “Ele começou a me perseguir na hora do recreio, gostava de me bater. Os garotos nem desconfiam, mas eles são educados para isso. Desde cedo, veem a mulher apanhando em casa, na novela, na literatura”, diz Kenia, escritora e atriz. Seu pai, que era segurança da família do mini agressor, ensinou a filha a reagir a fim de se defender. “Foi quando me tornei feminista”, conta.

Resultado de imagem para Kenia MariaA carioca logo percebeu que lutar pela igualdade de gênero, apenas, não bastava. Era preciso ir além: combater o racismo. “Na minha família e na minha religião, o candomblé, não existe machismo ou racismo. Meu céu tem deusas. Já o cristianismo é patriarcal. Além disso, Deus, Jesus e os anjos são retratados sempre como brancos”, destaca.

Em reconhecimento à sua luta, Kenia foi nomeada defensora dos Direitos das Mulheres Negras pela ONU Mulheres Brasil. Ela é a primeira a ocupar esse cargo, anunciado também em apoio à Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024) e à iniciativa global Por um Planeta 50-50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de gênero no marco da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável.

É uma grande satisfação para a ONU Mulheres Brasil receber o voluntariado de Kenia Maria, cuja trajetória de vida tem sido marcada pela valorização da cultura e da arte negra em contraponto ao racismo e às desigualdades de gênero. Kenia tem se dedicado à literatura negra infantil e à defesa das religiões de matriz africana, o que agregará aos debates sobre os direitos das mulheres negras durante a Década Internacional de Afrodescendentes e as ações para acelerar a igualdade de gênero no Brasil em apoio à iniciativa global da ONU Mulheres Planeta 50-50 com paridade de gênero em 2030”, afirmou Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres Brasil.

Na sua primeira declaração como Defensora dos Direitos das Mulheres Negras da ONU Mulheres Brasil, Kenia Maria, diz:

Sinto uma enorme alegria e satisfação em saber que a ONU Mulheres, juntamente com a Década Internacional de Afrodescendentes das Nações Unidas, tem, em sua agenda estratégica, o objetivo de mobilizar a sociedade para que a enorme demanda das mulheres negras seja ouvida. Tenho fortes razões para acreditar que mudanças estão por vir, e para mim é uma honra ser uma das defensoras desta causa. Na verdade, o nosso pedido é muito simples. Queremos apenas que a sociedade nos trate como humanas. Só isso”.

Homenagem em Nova York

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Kenia Maria e o marido Érico Brás serão homenageados em Nova Iorque

No próximo dia 30 de setembro, a militante, que acaba de lançar o livro infantil Flechinha, o Príncipe da Floresta, com personagens negros (e já tem mais uma obra saindo do forno, além de uma peça de teatro), será homenageada pelo seu ativismo em uma cerimônia em Nova York, nos Estados Unidos. Ela e o marido, o ator Érico Brás, foram listados entre os 100 negros mais influentes do mundo pelo Mipad, organização internacional que aponta os afrodescendentes que fazem a diferença no planeta.

Como é o seu trabalho à frente da ONU Mulheres no Brasil?

Eu milito há mais de 20 anos para combater o sexismo e o racismo no Brasil, principalmente na propaganda e na indústria audiovisual. Já viu comercial de absorvente com mulher negra? A gente também menstrua (risos). Quando a gente fecha os olhos e pensa em uma princesa ou em um super-herói, eles são brancos. Uma das maneiras de promover reparação histórica é construir um novo imaginário. Nenhuma criança nasce racista.

Você se considera uma mulher negra privilegiada?

Eu posso até ter vantagem social por ter uma renda que negros não costumam ter, mas não existe privilégio entre pessoas de cor. O Brasil está entre os dez países mais desiguais do planeta: 70% dos negros estão em estado de pobreza. Nosso projeto de nação é baseado no extermínio, fomos uma das últimas a abolir a escravidão. Que privilégio posso ter com um sobrenome português, e não africano, porque fui vendida e comercializada? Não sei quem são meus ancestrais. Roubaram a minha herança e a minha história. Que privilégio posso ter em um país onde morre um negro a cada 23 minutos?

As pautas do feminismo negro estão inclusas nas conquistas do feminismo?

O feminismo não contempla a mulher negra. A Lei Maria da Penha fez 12 anos e, enquanto a violência contra a mulher branca caiu 12%, contra as negras aumentou quase 60%. Somos violentadas o tempo todo, inclusive no hospital. Existe um mito, até hoje, de que mulher negra é mais resistente e não sente dor. Alguns médicos não querem nem dar anestesia. Tive dois filhos de parto natural, morrendo de dor, e ouvi isso. Quem não se comove e não se preocupa com essas questões está sendo violento também. O número de mulheres negras nas universidades é maior do que o de homens negros, mas, mesmo assim, elas não conseguem chegar ao mercado de trabalho. Nós, pretas, ocupamos apenas 0,5% dos cargos de chefia do país. Na rua, quando vejo cuidadoras negras carregando senhoras brancas, muitas vezes reparo que elas têm a mesma idade. Mas é a branca que está sendo cuidada.

Mulher negra sofre mais assédio?

O assédio e o estupro de mulheres negras eram uma prática normal durante o período da escravidão, quase que oficializada. Hoje, se a branca é estuprada, vira notícia. A preta não. Nós ainda somos mais vulneráveis. A figura da mulata é hipersexualizada. Durante muito tempo, o Rio de Janeiro vendeu cartões postais com fotos das nossas bundas.

O combate à apropriação cultural é exagero ou necessidade?

Necessidade. Hoje em dia é muito legal ser negro contanto que você não seja negro. Está na moda usar dread, turbante, ter uma boca carnuda… Muitas negras, no entanto, nunca usaram batom vermelho para não serem comparadas a animais, a macacos. Usamos turbante há séculos e fomos apedrejadas por causa disso. Em que momento usar o pano na cabeça passou a ser legal? Por quê? Essa moda é vazia. Além disso, colocam modelos brancas na passarela desfilando com o acessório de raiz africana, justamente em um momento de tanto debate sobre o preconceito racial. Não é que eu não queira que brancas usem, mas, nesse momento, é importante que sejam as negras a ostentá-lo com orgulho e de cabeça erguida.

Existe racismo entre negros?

Não tem como o negro ser racista, mas ele pode reproduzir comportamentos. A sociedade inteira é ensinada a fazer isso. Quando o negro diz que vai casar com uma loira para “limpar” ou “clarear” a raça, ele está rejeitando o próprio corpo. Assim como quando a negra usa maquiagem para modelar o nariz a fim de deixá-lo com formato mais europeu ou quando a mãe negra alisa o cabelo da filha. Meu filho ia de black power à escola e os colegas diziam que ele havia sido esquecido no forno. O livro Virou Regra, da Claudete Alves, mostra que a maioria dos negros, quando ascende socialmente, escolhe mulheres brancas. Existe uma ideia pré-concebida de que as negras são inferiores. Assim como existe o estereótipo do negro-favelado-assaltante. Infelizmente, eu mesma vivo um conflito constante de atravessar, ou não, a rua, porque o abismo social no nosso país é absurdo.

Ainda é muito cedo para falar em algum tipo de conquista?

Há cinco anos eu seria vista como uma militante negra raivosa, mas agora vou receber esse prêmio em Nova York. As coisas estão, aos poucos, mudando. Quando fui ao cinema assistir Pantera Negra, vi um menino branco de 12 anos segurando, entusiasmado, o boneco do super-herói negro. No Google, a busca por “cabelos cacheados” superou a procura por “cabelos lisos” pela primeira vez no Brasil. Tivemos um crescimento de 232% na pesquisa de cachos no último ano. Vejo mais meninas negras passando por transição capilar, orgulhosas, exibindo seu black power. Isso é uma conquista que gera muito lucro para a indústria de cosméticos. Conseguimos, pouco a pouco, despertar a atenção das pessoas para a causa. Não estou sozinha. Me atrevo a dizer que a Marielle Franco virou o nosso Martin Luther King. O maior desafio do movimento negro é estar vivo. Hoje, a minha grande luta é não deixar mais nenhuma mulher negra morrer.

Com informações de ONU Mulher Brasil e Universa

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