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Joênia Wapichana se junta a Mandela e Malala com principal prêmio de Direitos Humanos da ONU


Joênia Wapichana se junta a Mandela e Malala com principal prêmio de Direitos Humanos da ONU

“Essa pintura significa ‘a primeira mulher’. Eu sempre uso”, diz a advogada Joênia Wapichana, mostrando um conjunto de linhas e círculos pintados abaixo dos olhos, poucas horas depois de receber o principal prêmio de Direitos Humanos das Nações Unidas, em dezembro, em Nova York. O desenho centenário reconstrói a trajetória pioneira da brasileira de 44 anos.

Em 1997, foi a primeira indígena a se formar em Direito no país. Em 2004, a primeira a ir até a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em Washington, para denunciar violações do Estado brasileiro. Em 2008, se tornou a primeira a defender um caso no Supremo Tribunal Federal. Três anos depois, se tornou novamente a primeira a completar um mestrado em uma universidade dos Estados Unidos. A lista engordou no último mês de outubro, quando Wapichana rompeu mais um paradigma ao se tornar a primeira mulher indígena a se eleger deputada federal no Brasil.

Sempre fui minoria por onde passei”, afirmou a advogada em entrevista à BBC News Brasil. “Isso que me impulsionou a provar que somos capazes, que o indígena não é inferior e que basta ter uma oportunidade, que ele agarra”, resumiu.

Em pouco mais de uma hora de conversa, ela se lembra que na escola em Boa Vista (RR), onde era a única indígena, era chamada pejorativamente de “caboclinha”. Quando passou em quinto lugar no vestibular para o curso de Direito de uma universidade federal, foi questionada se entenderia o que diriam os professores. “Quando fiz a inscrição do vestibular, me lembro que as pessoas olhavam com cara de ‘você está na fila errada'”, diz.

Minha identidade está na minha cara, eu não tenho mistura. É essa cara da Amazônia que nós temos”, diz.

Agora, “a cara da Amazônia” se junta a uma trupe de premiados que inclui alguns dos nomes mais celebrados da História, como Martin Luther King, Nelson Mandela e Malala Yousafzai. Criado em 1968, o prêmio de Direitos Humanos da ONU é visto como uma espécie de Nobel da Paz concedido pelas Nações Unidas – já que boa parte de seus vencedores também recebeu, posteriormente, a honraria mais importante do planeta.

Vejo isso como responsabilidade, não vaidade”, simplificou a vencedora.

Observar as pessoas

Convidada para palestras ao redor do mundo, Joênia é hoje referência internacional no “direito de consulta prévia” – criado pela Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), ela determina a necessidade de consultas às comunidades indígenas e quilombolas para uso, gestão e conservação dos seus territórios e foi ratificada pelo Brasil e outros 19 países em 1989. A rotina como advogada – e agora deputada federal eleita com 8.491 votos – é bem distinta da infância pobre em Roraima.

Minha mãe achava que precisava colocar os filhos na escola, o que eu acho correto. Não tinha escola na comunidade na época, então, nos mudamos para Boa Vista e passei parte da infância lá”, lembra.

Caçula entre 8 irmãos, ela conta que teve o primeiro trabalho formal aos 14 anos, “fazendo cadastros em uma igreja”.

“Eu era a única indígena numa escola de não-indígenas e era muito ruim ser diferente dos outros. Eram filhos de fazendeiros, de pessoas que vinham de fora de Roraima. As crianças geralmente reproduzem o que os pais falam e, em Boa Vista, eles têm o costume de chamar índio de caboclo. Falavam: ‘ah, aquela caboclinha’. Para nós, é uma ofensa. Como ‘indiozinho’, ‘indiazinha’. Isso menospreza nossa origem. Eu talvez não percebesse naquela época, mas hoje vejo pelo meu sobrinho, pelas pessoas que vi crescendo e sofrendo”, lembra.

Joênia diz não guardar mágoas.

“Aprendi muito cedo a observar as pessoas. O Wapichana é muito paciente. Fala manso, presta atenção antes de falar, observa. É algo cultural. Você pensa que ele não está entendendo nada, ele está quietinho, ele adquire conhecimento assim. Minha aprendizagem foi rápida porque eu ouvia. E desde pequenininhos, aprendemos a respeitar os mais velhos. Enquanto todo mundo fazia bagunça, eu ouvia”, simplifica.

Indígena e deputada

Após a vitória em Brasília, Joênia aceitou um convite da Universidade do Arizona para o mestrado em Direito. “Eu sempre tive vontade de me aperfeiçoar nos direitos internacionais para defender melhor. Fui aprender inglês do zero. Passei um ano e pouco só estudando inglês até passar nos exames”, revela.

Hoje, mestre em direito e vencedora do prêmio de direitos humanos da ONU, ela se prepara para mais uma estreia: “Estou mudando agora da Joênia advogada para a parlamentar. Vai ser um trabalho novo para mim.”

Ela conta que nunca havia se envolvido com partidos até as eleições.

Diferente da política dos brancos, que se autoindicam, eu fui indicada por uma assembleia indígena para participar da política. Eles votaram para me indicar”, conta.

A estreia de uma mulher indígena em mais de um século de Parlamento no Brasil acontecerá junto à posse de uma das legislaturas mais conservadoras da história brasileira. Como lidar com a pressão de ruralistas e defensores do fim dos direitos exclusivos concedidos pela Constituição a povos tradicionais?

“As comunidades indígenas não significam um empecilho ao desenvolvimento. O planejamento econômico de um Estado tem que ser feito a partir da realidade das demarcações de terras, e não simplesmente de uma espera ou boicote de procedimentos de demarcação para se pensar a economia”, avalia a nova deputada de Roraima – cujo território é formado em 46,7% por terras indígenas.

Dentro em mais um espaço dominado por brancos, ela pretende contar mais com a sociedade do que com políticos.

“Se por um lado há meia dúzia de ruralistas, por outro há uma população de minorias que se sente representada por mim ali. É uma população que precisa de representação. A política velha é formada por pessoas que só pensam em benefícios individuais. Eu vou levar valores coletivos. Vou contar também com redes de apoiadores, pessoas que compreendem a importância dos povos indígenas no mundo, e fazer com que eles se tornem cada vez mais visíveis”, acredita.

Reportagem de Ricardo Sena, para a BBC.

 

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