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Bibi Ferreira, a mulher multimídia que transformou a arte brasileira


Bibi Ferreira, a mulher multimídia que transformou a arte brasileira

Abigail Izquierdo Ferreira, a Bibi Ferreira, que nasceu em 1º de julho de 1922 e aos 20 dias de vida já estreava em um palco, morreu na quarta-feira (13), aos 96 anos, após sofrer uma parada cardíaca em sua casa no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro. A carioca, filha de um dos maiores nomes das artes cênicas do Brasil, o ator Procópio Ferreira, e da bailarina espanhola Aída Izquierdo, trilhou 77 anos de carreira, foi um dos nomes mais importantes no meio artístico brasileiro e seus feitos, como mulher, cantora, diretora e atriz, deixaram um marco sobre o que se entende por arte no Brasil.

Não sou estrela. Sou cometa, porque estou sempre em movimento”, afirmou no auge da carreira.

Da estreia, aos 20 dias de vida no colo da madrinha Abigail Maia, em encenação de “Manhãs de sol”, de Oduvaldo Vianna até sua morte, Bibi nunca parou. Aos 95 anos, em março de 2018, foi assistir à uma peça em teatro no Rio e fez o público se emocionar ao chorar cantando música de Edith Piaf (1915-1963), francesa que Bibi interpretou com maestria em musical de enorme sucesso no Brasil e em Portugal.

Sua interpretação foi considerada tão perfeita e cuidadosa, que mesmo pessoas que conheceram a própria Piaf se espantaram com o nível de semelhança de voz alcançado por Bibi. Com o espetáculo, conquistou os principais prêmios do teatro nacional: Molière, Mambembe, Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Governador do Estado e Pirandello. Apenas alguns dos muitos prêmios que colecionou ao longo das décadas de carreira.

Lutou muito pelo espaço feminino no mundo da arte. Bibi deu um basta ao machismo que dominava o ambiente artístico no Brasil e se tornou uma das primeiras mulheres a dirigir peças de teatro na época, em que elas eram restritas a participarem dos espetáculos apenas como atrizes; nunca no comando.

No ano de 1944, Bibi fundou sua própria companhia de teatro: a Companhia de Comédias Bibi Ferreira. O espetáculo de estreia foi o “Sétimo Céu”, protagonizado por mulheres, com as atrizes Maria Della Costa e Cacilda Becker. Sua importância ao longo dos anos fez com que seu nome fosse escolhido para representar um dos prêmios mais importantes do teatro. O prêmio Bibi Ferreira prestigia as melhores obras do teatro nacional. Seu nome, além do prêmio, deu origem também ao Teatro Bibi Ferreira, localizado em São Paulo, que traz atores da TV aos palcos teatrais. Em 1952, a artista recebeu o prêmio de melhor direção pela peça “A Herdeira”, de Henry James, pela Associação de Críticos do Rio de Janeiro.

Sua estreia profissional nos palcos aconteceu em 1941, quando interpretou “Mirandolina”, na peça “La locandiera”. Em 1944, montou a própria companhia teatral, reunindo alguns dos nomes mais importantes do teatro brasileiro, como Cacilda Becker, Maria Della Costa e a diretora Henriette Morineau. Na década de 1960, vieram os sucessos dos musicais, como “Minha Querida Dama” (My Fair Lady), estrelado por ela e Paulo Autran. Nessa época atuou também em musicais de teatro e televisão. Em 1960, começou a apresentar na TV Excelsior de São Paulo o programa “Brasil 60,” que era ao vivo e durante dois anos levou à televisão os maiores nomes do teatro.

Bibi Ferreira com o pai, Procópio Ferreira, em 1978 — Foto: TV Globo

Já na década de 1970, Bibi foi o principal nome de “O homem de La Mancha”, musical de Dale Wasserman dirigido por Flávio Rangel e com letras adaptadas para o português por Chico Buarque.

Sempre multimídia, Bibi fez filmes, apresentou programas de TV, gravou discos e dirigiu shows sem nunca abandonar o teatro, uma grande paixão. Foi enredo de escola de samba (Viradouro, em 2003) e teve recentemente a vida e obra contadas em musical escrito por Artur Xexéo e Luanna Guimarães e dirigido por Tadeu Aguiar.

Marca no Canecão
Tina Ferreira e Bibi Ferreira — Foto: Bazilio Calazans/TV Globo

A artista deixaria ainda seu nome marcado na casa de shows Canecão ao dirigir o espetáculo “Brasileiro, profissão esperança”, de Paulo Pontes e Oduvaldo Vianna Filho, produção inspirada na obra do compositor Antonio Maria. No início, um show em escala menor apresentado em boates e estrelado por Ítalo Rossi e Maria Bethânia, o musical foi reformulado, ampliado e, agora protagonizado por Paulo Gracindo e Clara Nunes, se transformou em um dos maiores sucessos da história do Canecão. Em 1975, Bibi recebeu o Prêmio Molière pela interpretação da personagem Joana, de “Gota d’água”, de Paulo Pontes e Chico Buarque, montagem que ambientava a tragédia “Medeia”, de Eurípedes, em um morro carioca.
Amália

No início dos anos 2000, ela realizou mais um impressionante trabalho ao interpretar a fadista Amália Rodrigues no espetáculo “Bibi vive Amália”. Em seguida, Bibi apresentou dois recitais, “Bibi in concert” e “Bibi in concert pop”, nos quais se apresentou acompanhada por orquestra e coral.

Nunca pensei em parar. Essa palavra nunca fez parte do meu vocabulário, mas entender a vida é ser inteligente. Fui muito feliz com minha carreira. Me orgulho muito de tudo que fiz. Obrigada a todos que de alguma forma estiveram comigo, a todos a que me assistiram, a todos que me acompanharam por anos e anos. Muito obrigada”, disse Bibi, em comunicado publicado em rede social, no dia 10 de setembro de 2018, quando anunciou que encerrava, ali, uma das carreiras mais gloriosas construídas por uma artista no Brasil e no mundo.

A carreira praticamente centenária, não lhe tirou, contudo, o nervosismo de iniciante. “Sabe que eu ainda sinto uma angústia naqueles instantes antes de entrar em cena? Aquele lugar, depois que você sai do camarim, e ainda não está no palco. Aquele cantinho… É ali que eu sinto um terror”, ela relatou em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, quando completou 90 anos.

Na sala do apartamento onde morava, no Rio, a atriz guardava um retrato emoldurado do pai. Mas não creditava apenas a ele as lições aprendidas. Era descendente de cantores líricos: “Meus bisavós se conheceram no coro do Teatro Solis, de Montevidéu”, contava. “E minha avó, filha deles, já acordava cantando árias de ópera. Cantava o dia inteiro”. Bibi também cantava o tempo todo. E cantava sem perceber. Parecia que cada lembrança de sua vida era acompanhada por uma canção, que ela desfiava a melodia como se fosse parte da história a ser contada.

Bibi dizia que o segredo da saúde era a vida regrada. Não fumava, não bebia. “Não que eu seja contra”, ela justificava. Mas seus vícios eram outros: Um par de sapatos sempre muito altos – para compensar a baixa estatura -, batom sempre vermelho, um copo de Coca-Cola, que ela ia tomando devagarinho enquanto conversava, e o trabalho. A atriz e mulher transformadora, que não pensava em parar, que queria voltar a viver Piaf, tornar a cantar Frank Sinatra, viajar pelo mundo e estar sempre e mais uma vez no palco, deixou seu brilho na arte brasileira.

Com informações do G1 e da Revista Exame.

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