• Ínicio
  • Carolina Maria de Jesus, que faria 105 anos, é homenageada pelo Google

Carolina Maria de Jesus, que faria 105 anos, é homenageada pelo Google


Carolina Maria de Jesus, que faria 105 anos, é homenageada pelo Google

Em 1960, Carolina Maria de Jesus foi a grande revelação da literatura brasileira. Nascida no sudoeste de Minas Gerais, em 19 de março de 1914, ela morava na favela do Canindé (em São Paulo), quando foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas e publicou seu primeiro livro: “Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada”. Carolina era catadora de papel na época, mas mantinha um diário que deu origem ao livro. A obra tornou-se best seller rapidamente, foi traduzida em 16 idiomas e vendido em mais de 40 países. O mundo inteiro voltou os olhos para essa mulher negra e favelada, que escrevia sobre sua realidade de maneira visceralmente poética. Mesmo assim, hoje em dia, muitos brasileiros desconhecem a obra dessa figura tão importante e inspiradora.

Nesta quinta-feira (14), quando a escritora completaria 105 anos, ganhou uma homenagem do Google. Durante o dia todo, o logo da empresa, na página principal do site, se transformou em uma ilustração que a retrata, um Doodle, com um vídeo contando sua história. Além de um retrato de Carolina, o Doodle representa também uma favela e um livro, remetendo à  história dela como escritora. Justa homenagem a uma grande brasileira que muitas vezes é esquecida. Confira abaixo:

A brasileira é considerada uma das primeiras e mais importantes escritoras do Brasil. Ninguém esperava que a mãe solteira, descendente de escravos e meeiros, e que teve uma educação limitada, se tornasse uma autora mundialmente famosa. Ainda assim, sua prosa poderosa destacou as lutas das pessoas que moram nas favelas de São Paulo. No campo das mulheres escritoras, negras ou não, está em uma categoria bastante elevada. Sua obra vendeu, só lá fora, milhões de exemplares. Foi best-seller na Alemanha, Estados Unidos, França, Itália, Argentina e Inglaterra. Seu livro teve mais de duas edições no Japão e em Cuba, e ficou bem em países como Rússia, Dinamarca, Holanda, Suécia, Hungria e República Tcheca.

Enquanto criava sozinha o primeiro de seus três filhos, Carolina construiu uma casa improvisada com tábuas de madeira, madeira compensada e outros materiais encontrados. Ela ganhava a vida como empregada doméstica e reciclando papel, latas e garrafas para alimentar sua família. Enquanto lutava pela sobrevivência, encontrou tempo para manter um diário, enchendo cadernos antigos com os detalhes da vida diária em um mundo que ela descreveu como a “sala de despejo” da cidade.

Em 1958, Audalio Dantas, um repórter de um jornal local, ouviu a mulher exclamar para um grupo de homens que, se não se comportassem melhor, ela colocaria seus nomes em seu livro. Depois de pedir para ver o livro, ele ficou impressionado com o poder de sua escrita.

Seu talento era realmente único”, disse Dantas, que organizou a publicação dos diários no jornal local.

Instantaneamente, o artigo causou uma sensação que levou o primeiro livro de Carolina a vender 10 mil cópias em apenas três dias, tornando-se um dos livros mais lidos da história da publicação brasileira. Foi finalmente traduzido em 13 idiomas diferentes e distribuído em mais de 40 países, dando voz às pessoas marginalizadas e abrindo novos caminhos para autores negros no Brasil e em todo o mundo.

Carolina de Jesus conheceu o sucesso e o fracasso quase simultaneamente. Não só teve a glória de se hospedar no Copacabana Palace, a convite da revista Life, em 1960, como, no ano seguinte, a RCA lançou um disco com canções em que ela assina letra e música. No entanto, a fama durou pouco. O fracasso viria com as publicações posteriores: Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada, de 1961. Provérbios, e Pedaços da fome, de 1963. A última obra, Diário de Bitita: um Brasil para brasileiros, publicada primeiro na França pela prestigiosa Éditions Métailié, com o título de Journal de Bitita, só sairia no Brasil em 1986. Depois de conhecer a fama, a autora voltou à vida de pobreza. Morreu em 13 de fevereiro de 1977, na casa de um dos quatro filhos.

O sucesso de Quarto de despejo, o livro, motivou Quarto de despejo, o disco, onde a catadora de papel que se tornou escritora, gravou em 1961, músicas que ela mesmo compôs. O raro LP pertence ao Acervo José Ramos Tinhorão, sob a guarda do IMS. Em homenagem ao centenário de Carolina Maria de Jesus, em 2014, a Rádio Batuta publicou as 12 faixas. Para ouvi-las, basta clicar em seus títulos, nesta página.

A pesquisadora Raffaella Fernandez organizou o material inédito deixado por Carolina de Jesus em 58 cadernos que somam 5 000 páginas de textos: são sete romances, sessenta textos curtos e cem poemas, além de quatro peças de teatro e de doze letras para marchas de carnaval.

Dos livros escritos acerca da autora, destacam-se Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus (1994), de José Carlos Meihy e Robert Levine; Muito Bem, Carolina!: Biografia de Carolina Maria de Jesus (2007), de Eliana Moura de Castro e Marília Novais de Mata Machado; Carolina Maria de Jesus – Uma Escritora Improvável (2009), de Joel Rufino dos Santos; e A Vida Escrita de Carolina Maria de Jesus, de Elzira Divina Perpétua.

Mais de quatro décadas após a sua morte, uma detalhada biografia foi lançada pela Malê, editora focada em autores negros. Escrito por Tom Farias em 2018, o livro de 402 páginas é resultado de um minucioso estudo realizado sobre Carolina.

Carolina foi uma mulher predeterminada a vencer na vida pela escrita e pela literatura. Ela desafiou embargos, preconceitos e enfrentou adversidades, sejam raciais ou de gênero. Encarou a tudo e a todos com as anotações nos cadernos velhos e nas leituras das obra dos grandes autores nacionais e dos clássicos da literatura que encontrava nas suas catações de papéis. Era também uma mulher cuja inteligência a fez deixar a favela, ter discernimento para educar os filhos, comprar casas e terrenos. Carolina foi o resultado de uma evolução lenta da garota de Bitita de Sacramento, sua cidade mineira natal, até a mulher que, com um diário de anotações, se tornou a escritora mais lida do inicio da década de 1960, explica Tom.

Em entrevista ao MdeMulher, Tom falou sobre “Carolina – Uma Biografia” e sobre a história dessa grande mulher. Confira abaixo:

MdeMulher – Como surgiu a ideia de lançar “Carolina – Uma Biografia”? Quando você começou a trabalhar no livro? Como foi realizada a pesquisa?

Tom Farias – A ideia do livro surgiu há dois anos, por perceber que havia uma grande lacuna sobre a escritora Carolina Maria de Jesus, especialmente no antes e no depois do lançamento de “Quarto de Despejo”. A pergunta que ficava era como uma mulher como Carolina surge no cenário nacional, vira escritora de sucesso de uma hora para outra, e ninguém nunca a percebeu? As investigações que surgiram dessas indagações me levaram a conhecer uma nova Carolina e a história da escrita de uma mulher com 20 anos de carreira. O livro é o primeiro passo para resgatar a Carolina do lugar comum do seu livro de sucesso e revelar a escritora que nasceu nela, após os 20 anos de idade. Minha intenção foi trazer a público – depois de consultar centenas de documentos, livros, imagens, de ouvir pessoas como Audálio Dantas, Vera Eunice, e seu irmão, José Carlos de Jesus (que me concedeu sua última entrevista, pois morreu em 2016) e de traçar um retrato o mais fiel possível da escritora mineira – uma espécie de grande reportagem, para que as pessoas possam entender quem ela realmente foi e possam contribuir para expandir ainda mais o seu legado.

MdM – Nesse processo, você descobriu sobre ela coisas que ainda não sabia? O que, por exemplo?

TF – A parte mais reveladora do estudo é sobre a fase em que ela morou no Rio de Janeiro – um dos lugares foi a cidade de Nilópolis. Carolina esteve por quase dois anos no Rio, entre final de 1940 e 1942. Veio tentar a carreira como “poetisa preta”, como se qualificava. A outra revelação é que ela ensaiou ser jornalista em um jornal paulista e também se dispunha a dar aulas na favela do Canindé. Além de seus amores e da relação com a bebida – fatos que expõem uma Carolina completamente irreverente e nova para nós. Fora isso, o alcance do sucesso do seu livro, sobretudo em língua estrangeira.

MdM – Mesmo com pouco estudo, Carolina de Jesus tornou-se uma escritora reconhecida. Como conseguiu esse feito, na sua opinião?

TF – Graças ao grande jornalista Audálio Dantas – um profissional que tinha consigo um forte pensamento socialista – as duas matérias realizadas com Carolina (em 1958 e 1959) chamaram a atenção, de forma curiosa, para aquela mulher até então simples, moradora de uma favela, que sabia escrever livros. Era um feito extraordinário ter uma mulher como Carolina nessas condições, sobretudo para quem a via catar papel nas ruas (não lixo, como muitos dizem por aí) e a tinha como moradora de uma favela. Afinal, Carolina era uma mulher negra, semialfabetizada, sem profissão definida, mãe solo de três filhos pequenos – e, acima de tudo, falante e destemida.

MdM – Qual é a importância do resgate da história de Carolina nos dias de hoje?

TF – Penso que este trabalho sobre Carolina é um primeiro passo para melhor a conhecermos como mulher e escritora, e mesmo como intelectual. Carolina está sendo revivida pelos movimentos sociais comunitários – de negros e de mulheres – engajadas na luta de liberdade e por igualdade de direitos. Obviamente a presença da história de uma mulher como Carolina – no contexto da intelectualidade, ou de descontextualizar a chamada intelectualidade que está aí posta há séculos – faz dela um marco referencial de superação para esses segmentos, transformando-a num símbolo. No arcabouço de histórias comuns a dela – de entes moradores de favelas ou não – que precisam ter coragem, como Carolina, para contar suas histórias.

MdM – Na sua opinião, o que Carolina representa para a história dos autores negros no Brasil e para o movimento negro e periférico como um todo?

TF – A história contada por Carolina correu o mundo. Sua representatividade para o movimento social negro, sobretudo de gênero negro, é enorme. Carolina vem a ser a maior escritora negra brasileira, a mais popular e mais editada da história do país. Em termos autorais, “Quarto de Despejo” já é o livro mais editado – em termos de tiragem, nem se fala. No exterior, bateu todos os recordes.

MdM – Como está sendo a repercussão do lançamento do livro?

TF – Ele está sendo muito procurado. É uma proposta nova, diferente, que visa trazer a Carolina, desde Bitita, do avô Sócrates Africano, até a sua morte, por ataque de asma, em Cipó, perto de Parelheiros [bairro no extremo sul de São Paulo]. A biografia procura também humanizar Carolina no que ela tem de contraditório, com relação aos seus relacionamentos afetivos, uso de dinheiro, relação com amigos e editores, com Audálio Dantas e com os filhos dela. Como um nome forte que é, pelo seu ressurgimento no campo da escrita literária, é normal que a procura enorme pelo livro tenha a ver, ao mesmo tempo, com a vontade do público de matar estas curiosidades, bem como se atualizar sobre sua história.

Com informações do MdeMulher e Google

Compartilhe nas redes sociais