O feminismo e o jogo político

Em artigo publicado dia 12 de janeiro na Folha de São Paulo a senadora Marta Suplicy, do MDB SP, falou sobre “Assédio, Globo de Ouro e Angélica”. O texto utiliza acontecimentos recentes, muitos deles resultado de ações de Mulheres Transformadoras, como o discurso de Oprah no Globo de Ouro 2018, as mulheres de preto na premiação, a reação negativa de francesas e brasileiras a favor de homens e da paquera, e até a forte presença da atriz e cantora Angélica ao lado do marido, possível pré-candidato à presidência, para falar sobre a importância da luta feminista e da política. Na avaliação da parlamentar, não há necessidade de abrir mão da feminilidade e do romantismo, mas é preciso seguir lutando contra o assédio e os abusos.

Marta Suplicy acredita que feminismo já está inserido na política e que a luta continua (foto de Jefferson Rudy/Agência Senado)

“A questão do feminismo entra, definitivamente, no jogo político. Time’s Up para as mulheres. Queremos esta mudança! E, por que não, com flores”, questiona Marta em seu texto. A senadora afirma, ainda, que para frear os abusos contra as brasileiras, apresentou projeto no Senado Federal. “Já está para aprovação da Câmara dos Deputados um projeto de lei que institui o crime de molestamento: prevê de 2 a 4 anos de reclusão a quem constranger, molestar ou importunar alguém mediante prática de ato libidinoso realizado sem violência ou grave ameaça”, explica.

Confira, abaixo, a íntegra do artigo:

Discurso de Oprah contra abusos chamou atenção para possível participação dela na disputa à presidência

Assédio, Globo de Ouro e Angélica

A unanimidade, na última edição do Globo de Ouro, se é que existe, foi Oprah Winfrey —aventada como opção a Trump, em 2020.

Vencedora, mulher, negra, símbolo de superação de todos os preconceitos e de abusos: algo suficiente para derrubar qualquer um ou uma.

Não foi pouca coisa esse Globo de Ouro! As mais prestigiadas atrizes do planeta envergando preto em protesto aos abusos que permeiam o mundo empresarial, a política, a religião, a cultura e muitos lares.

Não concordo com Tati Bernardi, em coluna nesta Folha (9/1), quando afirma que as atrizes levaram mulheres não famosas ao pódio como se fossem a bolsa da moda.

Por mais que algumas tenham tido um comportamento “patronizing” (maternal), a negra, a latina, a lésbica (etc) estavam representando todas as outras que não são famosas e que nunca conseguiriam ser ouvidas ou respeitadas. É hora de união e aplauso.

As críticas estão aí, e as francesas foram rápidas no seu questionamento, assim como as brasileiras, que já se manifestaram com o “primeiro assédio…”.

Importante é que não teremos volta na guerra contra o assédio, mas, certamente, é preciso cuidado para não cair em uma trilha perigosa: o nada pode. Isso favorece os que dizem “deixem de mimimi” e a oposição às mulheres no embate pendular que, invariavelmente, ocorre em mudanças tão significativas como essa que vem agora como um tsunami.

Atrizes francesas percebem essa armadilha e, com cem assinaturas, entre elas a de Catherine Deneuve, afirmam: “O estupro é um crime, mas a paquera insistente, ou sem sutileza, não é um crime, nem galanteio é uma agressão machista.” Concordo.

Lembro-me de que, estudando nos EUA, nos anos 60, uma colega e eu íamos entrar no elevador, e um colega se apressou para abrir a porta. Jane reagiu: “enquanto isso me custar US$ 1.000 a menos no meu salário, eu mesma abro a porta”. Pasma, eu pensei: “Quero o mesmo salário que o dele e que ele abra a porta…”

Para não sentirmos saudade das paqueras ou do cavalheirismo, o pêndulo tem que ficar no meio. É o desafio. As francesas falam do galanteio que faz com que a mulher se ache linda e da paquera insistente que pode levar, ou não, a aceitar um convite para jantar.

Lógico que, quando existe uma situação de subordinação, a coisa muda de figura. Certamente, não se referem ao molestamento.

Nós, brasileiras, vivemos assédio em situações diversas, casos absurdos como a da ejaculação no pescoço no ônibus. Temos lei severa (a do estupro, cuja pena é de 6 a 10 anos de reclusão, e mais dura ainda em casos com agravantes); ao mesmo tempo, um vácuo legislativo.

Há juízes entendendo que uma condenação para molestadores, com base na lei do estupro, é exagerada, e isso tem dado margem para que agressores fiquem livres, o que nos causa muita revolta.

Para enfrentar essa situação, apresentei e está para aprovação da Câmara dos Deputados um projeto de lei que institui o crime de molestamento: prevê de 2 a 4 anos de reclusão a quem constranger, molestar ou importunar alguém mediante prática de ato libidinoso realizado sem violência ou grave ameaça.

O assédio virou um símbolo, pois engloba muito mais. É, principalmente, o respeito que merecemos e os limites que esse reconhecimento impõe. Um tempo no qual nenhuma mulher dirá “eu também fui…”

Movimento de artistas mostra força da união feminina e não precisa significar combate à homens

Os políticos que se cuidem. No Faustão, Angélica engoliu Luciano Huck. Um cara com reconhecido apelo em todas as classes, que se permite ficar ao lado de uma mulher mais carismática, cheia de beleza e leveza. Quer interpretar?

Eu diria que ela é companheira e, como parceira de uma candidatura, a cena montada foi incrivelmente hábil. Deu oportunidade de mostrar um candidato que valoriza a mulher, que se cala para ela falar e que pareceu moderno nas suas observações. E ela respondendo com maior liberalidade algumas questões de risco mais espinhosas.

A questão do feminismo entra, definitivamente, no jogo político. Time’s Up para as mulheres. Queremos esta mudança! E, por que não, com flores.

* Marta Suplicy, senadora pelo MDB-SP; foi prefeita de São Paulo (2001-2004), ministra do Turismo (2007-2008) e ministra da Cultura (2012-2014)

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